terça-feira, dezembro 05, 2017

Exonerado

A vida da à sua volta no som da espera enquanto se volta e revolta, espero a minha vez que retorta, na sala de gabinete cínico.

O estear que postula qual hora mal volvida, triste tortura imposta ao gabinete de saúde mínima.

De veia em veia, gotas cancerígenas, qual estrutura mal tida, neste tear de medicina vil.

Parte me a cabeça o diurno deambular, na procura de cura alheia, cheiro de éter no ar.

Sinto vontade a fuga, qual experiência que me há-de matar, faz de cárcere vivida, experiência que me há-de tomar.

Ostracizado de saúde, preferiria a apatia, sempre seria para me levar, desta podre melancolia.

Explico de novo a mim mesmo, neste diário de ousadia, suplanto a aparente alegria neste meu canto de fumos e porcaria.

Chamo por fim o meu cacilheiro, qualquer barco que me há-de levar, passando o rio Stix nem o barqueiro me quer transportar.

Desperto, contemplo o que me dá alegria, uma pessoa que me enche de alegria, mais me compreende que eu mesmo a mim.

Uma pessoa que me enche de sensação, boa e profunda, indescritível.

Uma pessoa que me tem o coração ao peito, que nem sei bem como tratar.

Espero então neste gabinete, rasga a hora de me levar, sinto uma certa letargia.

Quem me dera escapar

domingo, dezembro 03, 2017

Retalhos de conversa

Por entre as sombras e o silêncio, provas do que me apetece fazer.
Silêncio que tomo pela segurança do quotidiano e de toda a estrutura conhecida, silêncio que é, enfim, inimigo de tudo o que possa considerar como certo.
Mas vai e vem essa vontade de querer abanar esses alicerces e de querer fazer e construir de novo, por entre o pó que se haveria de assentar.
Por entre o que se destrói, existe sem dúvida uma nova criação, com um certo desdém de passar, ou de ver o tempo desaparecer, sempre que nos movemos pelas entrelinhas.
Apraz-me assim, sem me fazer uma sincera honestidade, ao movimento que possuo.
Mas confunde-me no olhar, pensar em que pode ou não ser, sem conhecer de como poderá decorrer e isso é um precipício que me parece sem fundo.
Passo o pé.
Tento sentir um fundo que não consigo ver e é amargo e doce, sem saber o porque desse dissabor.
E é que não sei, não sei como me explicar sobre, como me aproximar e falar contigo.
Então vem o requisito de existência.
Aproximo-me e fecho-me contigo.
Deita-te comigo, quero ouvir o som da tua voz, poder sentir o teu respirar perto e pelo anoitecer, perder-me em sonhos contigo.
Deixa-te estar encostada, deixa o mundo passar lá fora, como as estações que mudam, deixa o tempo ser a cada muda do seu momento um eterno discernimento e deixa a vida passar, pouco mais interessa.
Olha-me nos olhos, deixa-me ver o que te vai dentro, sem passar desapercebida, pelos meus te quero fitar, sem ter meio para medir e mediar cada sentido, sempre que possa expirar, respira esse movimento, mas deixa-te ficar.
Sossega aqui comigo, quero ver-te, sentir e tocar-te pode ser uma explicação que possa dar, talvez o encarar do elemento que nos afasta sem que realmente saibamos como nos aproximar, em cada volver, voltar a nada?
Deixa-me falar, é quase um horror o que tenho para explicar é acima de tudo o meu discernimento, uma palavra que tenho por falar, uma letra que devo deixar marcada, uma explicação talvez?
Calo-me ao sabor da noite, lembrando-me de tempos passados.
Esperaria uma resposta, pelo momento, deixo-me ficar vagalume, estático na escuridão.
Fecho-me de novo em mim.

segunda-feira, novembro 13, 2017

Húbris

Medicamento, para esta maleita, falso tendão de sentimento.
Raspar constante na pele, irritação do momento, traço latente e crescente.
Vertente de extremo à extremo, ciclo vicioso, certo e incerto, mas correctamente, incorrecto, que a toda a vertente, conhecimento ou inteligência.
Medicamento é pedido, para esse mal que me afecta, literalmente fora e cadencia em circular, observação de sistema, orientação lunar, abraço tido em segredo, passagens a meias, solta volta ao luar.
Correio que foi perdido, encontrado puro acaso, em revolta do que vamos sentido, contestação e comiseração tomada…
Obvio pelo olhar, as coisas escondidas, meias perdidas, a verdade que não sei.
Neste momento vazio…
Desenhar dentro das linhas torna-se uma tendência cadente, não desviar o rumo face ao desafio e simplesmente dançar ao som do bombo.
E como destoa o seu som, por entre as lacunas e as nascentes, como se sente por corredores desprovidos de vida e lavados para sempre, pelas lagrimas de quem não se soube segurar.
Como se compreende, fora de si, se em si não sabe tomar uma vertente ou uma entre ajuda, assim se espreita uma vida, vigiada desde momento primeiro, até ao expirar sereno.
Socorre então o medicamente, por tomar um seguro de momento, esquecer o pensamento e cair por terra obtuso e desgastado, sem sentimento em cara, taciturno e moribundo.
Ficar sem expressão, sem conclusão que tirar, deixar o sentimento sair por aí, sem pensar mais nisso, simplesmente olhar para o que se tem e pensar que nada é mais do que aquilo que poderemos considerar, partir a apatia e esquecer que tomamos dito medicamento, cair e repicar nele, um sem fim de ilusão, picar e cair fundo, esquecer e desaparecer.
Ouvir esse ribombar de martelos, partir face a estrada, voar planamente.
Esconder entre as ondas do cabelo vida e queimar vida com o olhar, sem deixar que ela se consuma, qual aragem fresca que teima em não passar.
Recordar que o esquecido passou a ser uma questão de perspectiva e que a vida se deixou arrastar.
Sentir a vertente que se aproxima, que cavalga a crista das ondas, sentir o escurecer do tumulto, olvidar a heresia que foi cometia.
Afagar o nada e pensar que pode ser um modesto dedilhar de um pensamento.
Húbris, vil e excrementício.
Como se me empalidece a voz.
Como se me destrói o pensamento.
Penso rápido no que me dói, agarro o medicamento, desaparece a mente, esquece-se o temido.

sábado, outubro 28, 2017

Passo, fuga e volta

Senta em silêncio, pela verdadeira palavra que há-de sair.
Sentada, de braços cruzada, altiva, assim se pode considerar.
Espera por um movimento, uma coligação sem nexo que possa seguir, no seu rastro, como um rastilho ardido, jazem aqueles que se atreveram e só se queimaram.
Então arde, como deve arder, como sempre ardeu, sempre de seu fogo dona, sem se espalhar por mais que um momento, dentro de si traz esse sentimento, de se por em altura de torre altiva.
Recolhe a luz e olha para o seu passado, contempla a decisão tomada, sem calcular mais que necessário, um certo e tomado passado, sempre em frente, essa é a ordem de progresso.
Descruza as pernas, brinca um pouco, aproxima-se, com movimentos suaves em nada forçados, sempre com um ar sereno na face, com cada movimento feito, assim seduz.
Solta o cabelo, corre os dedos e solta-se toda ela, nem o faz por mal, não existe qualquer sensação disso, simplesmente é aquele olhar e aquele movimento, aquela expressão de se querer soltar toda ela.
E conforme se mexe, tudo o que existe caí e fica sereno.
Se há fogo, nela tudo arde, nem sei como o descrever.
Quisera eu saber, falar de livre garganta, tudo o que quisera dizer, sem que o que diga possa passar por entre as velhas leituras daquilo que possa ser expresso.
Queria eu saber, como muda o mundo, de um lado, sempre passado, para um presente algo futuro, sem que o plano passe de si mesmo, alterado sem expressa informação.
Quero eu falar.
Quero eu dizer que de tudo o que possa ser feito, que se possa mover, sem remoer pelos intermédios, sem mais palavras que possa eu dizer.
Sem dúvida que me sabe um pouco a fogo.
Sem dúvida que sabe o sentimento que envolve.
Pena de mim, não tenho fogo.
Pena de mim, não tenho intento.
Pena de mim, aspiro ao vazio.
Parte de mim, quer então falar e dizer, que saber e ser, quer revelar e confessar.
Parte apenas à fuga.
Que mais se sabe fazer?

domingo, outubro 22, 2017

Meia dúzia de palavras e uma procura

Vem pela noite dentro e procura-me pela madrugada, aconchegado ao teu corpo, perto do teu desassossego e de toda a tua máscara.
Procura, pelo significado da tua máscara, de uma proximidade que possas ter, em silêncio, olha para ontem, tenta a minha explicação ou espera por ela, se me for permitido, dentro do abstracto, poder falar e entender a dois, o que nos vai na velada.
Aproximo-me, da mesma maneira que me afastas, sem complexo de senhoria, apenas uma necessidade que bem compreendo de permanecer una em ti.
Abro a janela e voo, não conheço então um trejeito ou uma maneira, se ficar, devo ficar, se partir, parece ser errado e como fiz, filo dentro de mim, com certa incerteza e com complexo desnorte, sem ter certa certeza, sem ter pé ante mão com absoluta perda de sentido e sem saber sequer em que pé me apoiar.
Não tomo por mão, estrutura ou o conhecimento, não sei erguer, nem erigir, tomo apenas por parte, o certo desconcerto de viver, como sempre vivo, experiência nova mas não querer despedir.
Dispo-me.
Deixo as coisas a nu, não quero sequer pensar em mais nada, que sejam livres os sentimentos assim como os sentidos, se vamos passar por pôr a limpo, que haja então um pouco de mim nisto, assim como um pouco de ti.
Sinceramente mais que um pouco um tudo e nem sei bem como explicar. 
Abraço então o conceito que ilude, não expressando na verdade o que desejava expressar, sem saber falar, fugir parece uma opção viável, sem sequer saber o porque de fugir, sem espaço para oratória que parece ter sido deixada, em detrimento de avulsão, de revolta e de separação.
Se por mim, não quero a separação, nem quero um afastamento, não quero esse extremo de nada.
Parece ainda que não me compete a mim.
Voa então da minha mão a oportunidade de expressão, caio por terra, sem que seja por mim, mais que tudo sem que seja por ordem ou expressão de outrem…
Revelo ao vento e fica presa essa sentida debilidade, sinceramente mais que saudade…
Calo-me, a noite vela larga, sem que seja mais um sentido, são então largas as horas que me esperam.
Quando for tempo, será tempo de enunciar…
Quero esse tempo, quero sem dúvida esse luar, quero sem dúvida esse lugar.

segunda-feira, julho 31, 2017

Questions and arithmetic tracking fields

The art of saving grace, the sound so soothing of blinds shut.
The hours, described in numbers, dropping by like changing flies.
The numerals, so insuring with themselves, arguing on the times to come, the savage steps of becoming madness and all the lies to be tell.
I speak not of the things that I could think but of the oblivious nature, the transcending degree of abstract that plagues the unwashed eye.
For it is, above all, the constant state of change, the cutting of the culling and the changes of one’s mind…
I speak of what it is to hale, and to speak of all the dead languages, to scream in unison, to declare what should be altered and what should, by force, set in stone.
Standing, taking the stage and declaring this to be but folly…
Searching, in search of an unkept seclusion, when we all but tried to run away, cringing at the verge of deceit, asking, screaming in anger to be free and to reach said state.
Drawing near, that sense of self, never to be held by the nerve of one’s existence, since all that we reach is but a arm’s length, grasping to know to include this knowledge is what we all hope to examine and write about.
Still, the pages are blank to the sound, since the sound seems to falter, knowing not what the noose ties, since the ties seem to have been broken with time and time seems to laps on itself, over and over, and over again.
We declare, from what we can search to find, that we would rather live on the edge, that feel the verge of existence, still, we don’t understand what it is, that it lies, on the other side of the side.
Still on the outside, still gazing in wonder, at what this side could hold for those who would dare to step in, stepping out of themselves, stating in this cold, but warm, stillness.
Stargazing then, beyond what can be beheld, longing for that substance, that sensation of belonging that carves down, deep inside, heart, soul and mind.
Close the sensation, leave every feeling behind, throw in the collateral damage and let the good time fly.
I speak not of consistency, I regret not.
I speak ill, in such a manner that retorts for hours on end, to the unwinding disaster.
The art of saving grace, escaping disaster, rather staying shut inside, hiding, hidden, secluded and lost.
The simplest art. Does not go for the living.

quarta-feira, junho 28, 2017

Mistério e uma Lua Azul

Esse teu nada, tão cheio de tudo, particularidade de quem move aventais, por entre os vendavais da vida.
Certo sentido, em sincronismo de vida, olhar para dentro, sem realmente contar o que vai dentro, existir, por entre a negação de ser ou saber, apenas expressar, sem passar sentimento.
Esse teu tudo, que é assim, vago sentimento, que mexes com as mãos, segurando no vazio, um pouco de um coração partido, enquanto apressas a coração, fazendo um repasto, em que a sobremesa é a loucura e todos os pratos, são guiados ao tento de tua mão, na verdade, deixas-te meio mundo louco, sem mexer um único menestrel.
Esse movimento tão estático, essa sensação de conceber palavras por entre as pálpebras fechadas de quem tece um argumento, sinistro sem sentido, na verdade se escreve por linha vazia, em carmesim, dores de coração e palavras para amor solto.
E não escrevo, a esse teu silêncio, esse teu nada, esse teu frustrante fechar de olhos e de coração, esse erguer de muralhas, que parecem paredes de areia, levadas pela mais baixa maré.
Prescrevo, não consigo dizer o reflectir naquilo que deveria ser pensado, sem que possa realmente levar a mão ao peito, a mão a cabeça, tocar alma e âmago…
Deixar assim, uma alma solta, presa em velas de candeias, espectros arrastados pelas marés, sem que os marinheiros possam lá voltar…
Então penso, pelo sonho que vem, o sono que não se apresenta, toda a maquinaria que sinto existir, a dor que carrego cá dentro e tudo o que desejava expulsar, limpar de mim, regurgitar…
Esse teu nada, que me deixa quase calado, que me apetece e me aprovem de fundo da alma, um grito bem profundo, uma vontade de partir contigo sem saber bem o que te dizer, parece assim, construir um pouco de desequilíbrio, jogo oculto, jogo presente, uma cantoria solta, qual tunates perdidos, deixados a derivar, pelo sol da charneca, no canto da duna, sempre presentes pela maré, deixados pela manhã, ao aperto da madrugada, sem mais ou menos questão.
Esse teu nada que é tudo, agarra-te por dentro, sem que queiras retirar de ti, de teu fundo, um pouco de ti, um pouco do teu mundo.
Como hei-de pedir explicação por dura expiração, certo é que deveria poder falar, poder gritar, cantar a garganta solta até em lágrimas, quase de sangue solto. Pedindo uma pequena, curta, breve e honesta explicação.
Esse teu nada, tudo, quase tudo, universo e planeta…
Arrastado por entre as pedras, à deriva para buraco negro…
Esse teu nada que era, que é, que será tudo, até que o libertes de ti.
Até quando, te cederes a loucura, até quando o quiseres, até que te der esta perdura…
Esse teu nada, para ti nada talvez, para mim, um sorriso e um abraço, é um grande tudo.

segunda-feira, junho 12, 2017

Deixar cair quem está a cair

Como acontece, em separado, por vezes em conjugação do que vai acontecendo, sempre em exclamação de perseguição, nesta imprecisa precisão em como vamos moldando o nosso dia-a-dia.
Acontece um pouco, como vou olhando, sentido em passagem, um olhar, se é que me percebes, tão só ficar a olhar, sem trocar uma palavra, acaba por não ser um exercício, se não um movimento tedioso e indefinido.
Clamar passa a ser uma solução e de facto, acalmar os sentidos, acaba por explicar a expiação sentida.
Contraponto, como deixar partir ao entardecer a razão, esperar por ver, por ter por perto aquilo que procuramos, por erguer uma ponte que nos aproxime, um elemento que nos leve a ser um pouco mais conexos.
Não existe paixão, existe uma necessidade de aproximação, sim, de travar conhecimento e de erguer um porto, entre duas cidades, entre dois mundos distintos, de saber o que pode ser trocado, o que pode ser transmitido, o que pode ser definido ou não…
Enfim, poupa-me um pouco a existência, não sei como fazer realmente este tipo de coisas, como criar e erguer, sem ter mais ou menos uma ideia do que devo construir.
Acontece, creio de vez em quando, ver passar o tempo, desligar e poder sentir a evolução do dia, enquanto permanecemos eternamente desligados do momento.
É uma espécie de evolução.
Sucede então um ruído, uma explosão intensa.
Acontece, com uma frequência cadente, a oportunidade de olhar e poder ver o que se pode fazer, de poder apreciar por um momento, a beleza alheia, de poder sentir, pela fugacidade do dia, um intenso contentamento, de procrastinar.
É uma progressão angular, como nos movimentos sem espaço, sem orientação que se possa explicar.
Permeável de expressão, ensaio de sanidade que expira, com o passar do tempo, ribombar e trovoada, áurea fanfarra enquanto a banda passa.
É mais uma manta, uma manta retalhada. Será que a vais ter?
Será que nos vamos aproximar?

terça-feira, maio 09, 2017

Ups nem começa a explicar

Os acidentes vão acontecendo.
Quase sem reparar, deixamos o mundo cair, os pratos partem e ficamos com um conjunto quase indecifrável de cacos na mão.
É uma luta, creio, constante? Talvez.
Na verdadeira expressão da palavra, devo dizer que é sempre mau.
Fazer de força palavra, deitar para fora e esperar um alento, sem saber se o que dizemos vai cair ou não em pratos rasos ou poços sem fundo.
Nisso, a verdadeira coragem é falar e ser escutado, sem mais pressão que essa, falar e dizer o que se tem que dizer e daí esperar que as coisas sejam certas.
Ou não.
Os acidentes vão, indubitavelmente, acontecendo.
Cresce nesta razão, que falar é o acto que deixa tudo em cacos.
Falar e ser escutado, é sempre uma coisa plena de direito, que devemos ter e quem esteja a nossa volta nos deva conceder, dentro do nosso círculo presente.
Creio que nisto, sou também um pouco pessoa a cair em palavras perdidas, porque na verdade, falho também no que devia fazer e em atender ao que está presente.
Os acidentes, acontecem, por expressão de desvio de atenção por desactivar de ser, por omissão de pensamento, por estupidas profunda, por acto involuntário de exprimir barbaridade e de pensar que tudo o que é feito, é feito por afastar quem se mete no círculo de existência, expulsando tudo o que se possa ter.
Como explicar?
Como explicar um desenho profundo ou um pensamento solto, como explicar evitar ser, existir ou exprimir, falar ou tropeçar no que se fala, sem dizer, contar o viver, negar e abstrair, de tudo e todos, de todos os momentos, meios e sensações, fechar na cápsula, nesta doma, isolar de tudo e todos, deixado ao refugio imenso, a devastação que é uma tundra, o abandono de um exílio.
Ups.
Caí tudo da bandeja, cacos por toda a parte, cacos de cristal, cerâmica, madeira, emoções e limiares de sensações, revelações nunca ditas e batalhas tomadas por perdidas, tudo espalhado e deixado à paisagem…
Mas ups.
Serviu para fazer porcaria.
Serviu para apagar a voz.
Serviu para tornar negra a vista.
Serviu para fugir.
Serviu para calar.
Apenas não serviu nunca para saber, para ouvir, para perceber.
Ups, fez-se porcaria…

Ápage

Olha para esta folha de papel, como ela olha para mim.
É um branco reflectido em nada, sem que reconheça o que está realmente a olhar para mim.
Olho para mim mesmo, nesse aspecto, não reconheço quem está a olhar, nem tenho ideia o pensamento de quem possa ser esse olhar.
Olho para o vazio, esse profundo céu azul que se perde ao fundo do oceano, sem nada que leve a palmilhar, imensos caminhos por percorrer.
Exprimo um pouco do que me vai soturno profundo, besta interior por libertar, tão só silenciosa, em vã busca de um lugar.
Reflicto sobre esse olhar, está um pouco apagado e como vem, com o cair da noite, trás no seu arrasto largo lastro, ancora funda para afogar.
Lamento assim a decisão, certa e azul, triste e calma, coisas que acalmam a alma que calam a mente, parecer escapar da mão, padecer qualquer maleita desconhecida, coisas que me deixa sem palavra, fala ou visão.
Olho, pareço padecer de um mal qualquer, reflectido nos meus olhos, está também um ser, um amalgamado de existência, reflexões que podem ser tidas, movimentos e decisões, tudo aguas perdidas, dívidas por paredes meias, pareces tão estranhos, como padecer de pensamento, sem sorver o sentimento, clara expressão de agonia.
Parece quase mentira, postular a expressão de abandono e seguir miserável dia a dia, perder a expressão de falar, rasgar palavras esforçadas e derramar tudo o que se possa passar, deixar silenciosa a força presente sem que por mais que a mente possa falar, esquecer, está tudo perdido.
Olhar para uma cama, ver nela um ser estranho, não lhe conhecer o engenho, ficar perturbado e maravilhado, por fera solta em romaria.
Esquecer o orgulho no olhar, sentir-se a terrena carcere que rodeia, perdia de vontade, expressão que varia, sentimento que cala, esforço que é feito, para exprimir em apatia, tudo o que poderia durar um dia.
Esquecer a identidade, olhar para onde se pôs um dia, pensar, enfim…
Como esquecer esta apatia?

sábado, março 04, 2017

Enquanto vivemos ontem

Isto é deixar partir, de dentro para fora, deixar o que possamos ter capturado, exposto ao olho nu do mundo.
Isto é pintar, descrever o que vai na alma, do dentro, do interno, no intransmissível e intransponível.
Isto é um pouco de mais tudo, um pouco mais daquilo que devia ser dito.
É como tudo, um pouco de aproveitar, de expressar, de falar, de ser acima de tudo honesto.
É um pouco empatar, porque sinceramente, como expressar ou dizer isto?
É como tudo.
Se vamos falar, que falemos, que escutes assim como eu falo, que compreendas sem medo de poder falar, de comunicar, bom ou mau, sei que nunca odiado, talvez um pouco desapegado, já é desregrado e perdido no tempo, vivido de ontem, já não é futuro, penso ainda nisto mas deveria ficar esquecido, parado e enterrado.
É como sempre foi, de verdade, não falar não é resolver, devo isto a quem me fala, sabes, é sempre aquela verdade e sabes também que estás sempre por perto, parte de ti tem que ficar aqui guardada, seja escrito em azul, é quase uma linha de comunicado, saudosa é a hora de ver quem se espera e é bom pelo menos manter uma verdadeira amizade.
Falando de passado, recolho por tudo o que é feito de mim, tudo o que me envolve e no que me vejo envolto, não saberia escrever nada feliz mas denote-se, não estou triste, cansado sim mas pelo menos sereno.
E como pode ser, olhar o passado, recortes de quem fomos, de quem nos fez, de como crescemos, dos eventos que nos deixaram marcados…
É a expressão de crescer, de vivenciar um pouco mais de tudo, de conhecer um pouco menos de nós e de saber que somos marcados, por bem e mal, por pessoas do nosso passado.
É saber que temos erros, que temos alegrias, que temos acertos, que temos derrotas, vitórias, histórias que podemos partilhar e momentos que levamos simplesmente gravados, como tatuagens invisíveis.
Beijos, abraços, momentos íntimos que não posso sequer falar.
Momentos que te partem.
Momentos que te constroem.
Enquanto vivemos de um futuro sem passado?
Quem sabe, espera-me uma resposta para um presente com futuro.
Sinceramente, neste momento sinto-me um pouco afortunado.
De poder exprimir, de poder falar, haja ou não a quem dizer, são palavras que levo em mim, tatuagens invisíveis, momentos vividos ontem, que não revelarei.
São imagens do meu eu, do meu interno momento, recordações que levo guardadas.

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Todas as cores de um vestido azul

Capítulo VI

Figura in somnis, luna et hyacintho 

Escapou pela madrugada, apoiada em todas as cores, vestindo um vestido azul, soletrava na calçada, com dança de alto tombava, sempre na desgarrada, sempre a vestir, esse vestido azul.

Deixou-me preso de madrugada, enquanto dançava, sempre sorria, toda ela voava e o mundo respirava e suspirava, sempre a olhar para ela, apresentando toda ela, em viva memória, todas, absolutamente todas, as cores do seu vestido azul.

Tirou-me a respiração, certamente por algum feitiço que se pudesse fazer passar, um movimento de alto, um correr para baixo, um gesto tão suave que arrastava com ela o mundo, toda nela, mil e um vestidos em tons de azul.

Parecia-me certo o julgamento, mas na verdade, não tinha sequer cabeça, não podia pensar ou tirar olhar, desviar o olhar, qual que, estava tudo de volta dela, desse seu movimento dominante, cabelo de fogo, azul vestido.

Não existe descrição, para tal visão, para tal momento, para tal expressão que me deixa atónito até neste momento, sempre com esse sentido, esvoaça pela mente e permanece sediado na memória, não por expressão de descontentamento, o afamando, vestido azul.

Corre por aí o boato, se sair por essa noite solta, com lua que vele pela rua, em noite de lua boa, quando se esperar, um timbre de silêncio, uma guitarra que se faça ecoar ao fundo, uma mistura de jazz, fado e blues, ela vai aparecer, cabelo ardente, resplandecente e de ela, não mais devemos esperar, um sorriso que nos deixe demente, um olhar que nos deixe doentes…

Mas tudo, tudo apenas, para a ver danças, nesse vestido azul.


segunda-feira, fevereiro 20, 2017

O fim de uma casa tombada

Qual é a ligação, o meio para as nossas conexões e tudo aquilo que nos aproxima?
Qual é o axioma que nos explica?
Mas é calmo, na verdade.
É esse o sentido de desaparecer no meio das ondas, de perseguir sem saber realmente o que estamos a perseguir, sem perceber o que seguimos mas simplesmente guiados por razão levamos a vida que vamos tendo, de acordo com a validez daquilo que podemos ou não inteligir.
Passa assim, um pouco por ser um significado frio?
Talvez.
Na verdade, na realidade, depende do que vai por dentro, do que transparece nem tanto mas da maneira em como aplicamos todo e qualquer movimento.
Dizem que nada acontece por acaso, pode ser mas daí, também não acredito que nada esteja escrito numa pedra, a sensibilidade necessária para poder interpretar e aceitar tal coisa, é um elemento que desconheço, prefiro neste ponto ser bruto e escrever na minha própria pedra, pelo menos é minha e se for para alguma coisa, que me reflicta, como eu sou.
É então senão nesta parte que a opinião se poderá dividir, dado que somos levados tanto ao divino como ao profano e nem sempre aceitamos as duas partes como um todo, quando na verdade, podemos passar por ser mais de uma “facção” do que de outra.
É um puro desconcerto.
Ser luz ou escuridão ou ser simplesmente cinzento?
Não é um ponto, não é alguma coisa que possamos dizer com certeza, vamos sendo como somos, resultados de acções, actos, consequências.
Será assim, que nos podemos talvez situar de uma maneira ou de outra? Ou seremos transitórios?
A confusão que posso gerar, pode ser para divertido entretém alheio, pode ser um mar de nada, com um oceano vasto de tudo?
Respostas são sempre coisas que podem falhar, como folhas que possam ainda ser escritas e que vão indo por comunicação falhada.
Sinto assim, que o axioma que me divide ainda não está claramente declarado e que a explicação da minha expiação é ainda velada.
Certo terreno e mal tratar de rimas, prosa solta e experiência vivida.
Continuo a utilizar o termo e a explorar conforme posso, se bem que cada coisa parece ter um fim mais seguro, o que advém é uma incerteza no meu olhar e com cada preposição… Um certo afastar.

É certo que o tempo já passou, creio que esta casa pode passar por ser fechada, trancada e a reflectir, sobre a sua fachada.





20/02/2017 – Claustrofobia, a casa fica fechada, o quarto abandonado.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Cenas e cortes de um diário

Um mistério de idade, sereno é como se faz, sem sentido ou conhecimento, assim se apraz.
Sempre é um movimento, um movimento corrido, tido pelo conhecimento.
Não é amar.
Não o foi, ou se o foi, já não se conhece, nem o podemos interpretar como tal.
Silencio.
A descrição do absoluto que vou rodeando e como o vou mostrando, sem saber, sem conhecer, sem poder minimamente perceber.
É a maneira como te vou concebendo, dentro da minha imaginação, sem saber se a imaginação pode ou não realmente passar disso.
É um projecto, é uma protecção, negação daquilo que pode ser, a maneira de aproximação, é um costume, enfim…
Rápido.
Como posso encontrar ou exprimir aquilo que posso sentir.
É um coração vazio, é o sentimento que trago no peito, não existe como o preencher.
Descrição que possa fazer, mais objectiva que esta, não posso expressar é esse um pesar daquilo que posso dizer?
Talvez.
Ponho em causa, a sabedoria do que posso dizer, apetece-me sempre divagar, sempre partir, ficar é uma opção mas sem motivos para me ligar, para me prender, sem motivos para olhar, suspirar ou aceitar.
O conceito?
Esse é tão abstracto…
Nem posso dizer, nem posso afirmar, exponho-me ao pleonasmo…
Será que me serve sequer a expressão?
É um navegar, um correr, voar, exagerar, não poder olhar sem desejar, é por fim um querer, um querer sem fim mas não existe um amar.
Amor?
Não é uma expressão, não é uma frase que seja dita, não é um acontecimento que vá por eu em causa, não é algo que te vá dar de mão, não é uma coisa que possa afirmar ter ou saber quem tenha por mim.
É uma não existência, uma negação em si mesmo, é não, não e não.
Vazio.
Não é por exprimir que posso saber do que falo, vai do id ao âmago, sem espaço para muito mais que fronteiras, rios e/ou ribeiras…
É essa a expressão?
É esse o sentimento?
Simplesmente negação, ilusão crescente…
Desligo-me.
Já me cortaram a nascente.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Cordéis

É estranho como sou desastrado, como tenho uma orientação para fazer no momento certo, tudo o que poderia fazer de errado.
É estranho, ter tamanha pontaria, de fazer por meia medida, um copo cheio de porcaria.
Venho ler as marcas, que me contradizem com pontaria, na verdade, não é bem um nexo, não saber o que dizer é uma harmonia.
Faço jus ao desenho, não demonstro sabedoria, saber falar, escrever ou cantar, passa assim por estranho efeito, sombra, movimento e coreografia.
Sempre sobre esse conceito, de movimento pendular, como nos arrastamos do regaço a nascente, sem saber bem para onde voltar.
Volta e meia, regresso ao meu presente, sem esquecer o meu passado, gostaria de viver no meu futuro, certamente, desastrado.
Com pontaria o diria, com certa mestria tiraria um sorriso.
E de tirana vontade, por volta e meia em meia volta, concentrar-me ia.
É estranho, não obstante o conceito, dizer por meia mentira, uma verdade completa e completamente não conseguir dizer o que deveria ser dito.
É um sentimento de claustrofobia.
Observo esse andamento, olho para uma mão vazia.
Estranho como os fantoches se mexem, cai por meia mão, passa a bonifrate, conhece já os movimentos de quem o guia, sem ser guiado, replica o movimento.
Tomo por meia medida o conceito, títere ganhou vida? Não creio plausível explicação mas a realidade assim é tida.
E com certeza, se afina o movimento, não necessita de comando, segue por si como considera, desrespeito para quem o vê?
Atado em cordéis uma vida inteira, não há borde, palavra meia, não por desrespeito mas alento à liberdade, levar em si vida inteira, sabedoria é majestade.